BATIMENTOS DE SANTIDADE: UMA CARÍCIA DA PROVIDÊNCIA NO CORAÇÃO DO JUBILEU
Carta por ocasião da beatificação do mártir Pe. Martino Capelli, SCJ
Os santos surpreendem, desinstalam, porque a sua vida
chama-nos a sair da mediocridade tranquila e anestesiadora
(Papa Francisco, Gaudete et exsultate, 138).
Aos membros da Congregação
A todos os membros da Família Dehoniana
Dirijo-me novamente a vós neste mês em que celebramos a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Nesta ocasião, a minha mensagem coincide com o aniversário da fundação da Congregação, para vos convidar a viver com gratidão e proveito espiritual a próxima beatificação do Venerável Servo de Deus Martino Capelli (1912-1944), que, como bem sabeis, terá lugar no dia 27 de setembro, em Bolonha (Itália).
No dia 21 de novembro de 2025, Leão XIV, acolhendo e confirmando os votos do Dicastério para as Causas dos Santos, declarou: “Constam o martírio e a causa que determinou o martírio do Servo de Deus Martino Capelli, sacerdote professo da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, por ódio à fé”. O Sumo Pontífice determinou, portanto, que o presente decreto fosse publicado e inserido nas atas do Dicastério para as Causas dos Santos.
Este acontecimento não é apenas institucional, mas é uma carícia da Providência para a nossa Congregação neste tempo de graça. Enquanto percorremos o caminho do nosso Jubileu dehoniano, Deus surpreende-nos com este dom maravilhoso: um presente que confirma o nosso carisma e a espiritualidade do nosso Fundador.
Neste ano de 2026, a graça de Deus, além desta beatificação, concede-nos a celebração de diversos acontecimentos que desejo sublinhar: o 25.º aniversário da beatificação do Beato João Maria da Cruz, no dia 11 de março, e o 90.º aniversário do seu martírio, no dia 23 de agosto. A isto se une a celebração do Jubileu dehoniano, no mês de novembro, que terá lugar em Kisangani e Wamba, na República Democrática do Congo, lugares do testemunho de fé dos confrades cujo sangue e cuja vida marcaram para sempre a terra africana e que nos estimulam a refletir sobre o significado da oblação vivida na Congregação (Ecce venio, Ecce ancilla).
Na “Consagração irrevogável ao Coração de Jesus”, que encontramos nos Escritos Espirituais do Pe. Martino Capelli, lemos:
Ó Jesus, quero entrar no teu santo Coração, fechar-me dentro dele com todas as minhas misérias, para cantar eternamente as tuas misericórdias. Quero que, de agora em diante, Tu sejas para mim pai, mestre e senhor. Que Tu sejas o centro, o anseio da minha vida. Amar-te-ei e farei com que outros Te amem.
Martino Capelli não é apenas um mártir; é o exemplo tangível do que significa ser um Sacerdote do Sagrado Coração de Jesus. Podemos dizer que ele é um rosto vivo do nosso carisma.
Além disso, Martino viveu a oblação até ao dom da própria vida, unindo o seu sacrifício ao de Cristo na Cruz. Foi na Cruz, contemplando o lado trespassado do Salvador, que Martino aprendeu a não responder com ódio, mas com conforto e presença, consolando o povo que lhe tinha sido confiado. Ele não recuou no amor, pois deu a sua vida, derramando o seu sangue para seguir fielmente Jesus Cristo, seu único Mestre e Senhor.
Ao celebrarmos o seu martírio, não podemos permanecer indiferentes diante dos conflitos e das guerras que hoje, em tantas partes do mundo, continuam a semear morte e divisão. O seu testemunho é uma preciosa ocasião para sensibilizar o nosso olhar perante a sociedade. Somos impelidos a interrogar-nos sobre os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs e a assumir as feridas do mundo, para que a nossa espiritualidade dehoniana se traduza num compromisso concreto pela justiça e pela reconciliação: “Animando, assim, tudo o que somos, fazemos e sofremos ao serviço do Evangelho, o nosso amor, pela participação na obra da reconciliação, cura a humanidade, reunifica-a no Corpo de Cristo e consagra-a para a Glória e a Alegria de Deus” (Cst. 25).
Neste horizonte de santidade que abraça os continentes, a nossa oração une-se também a outras testemunhas da Família Dehoniana: a Beata Albertina Berkenbrock (†1931), no Brasil, e a Beata Marie-Clémentine Anuarite Nengapeta (†1964), na República Democrática do Congo. As suas vidas, marcadas pela pureza e pelo dom total de si mesmas, recordam-nos que o sacrifício não conhece fronteiras geográficas, mas fala a única língua do amor oblativo. A estas duas testemunhas, unimos também o Servo de Deus Bernardo Longo (†1964), o Venerável Aloísio Sebastião Boeing (†2006) e o Servo de Deus Léo Tarcísio Gonçalves (†2007), figuras luminosas que nos ensinam que a fidelidade ao Evangelho floresce em qualquer terra, onde o coração se abrir à ação do Espírito, tornando visível a ternura de Deus pela humanidade ferida. Tudo isto é também um convite a recuperar a “memória” das nossas testemunhas dehonianas.
Exorto-vos, portanto, a revigorar este elemento essencial da nossa identidade – a oração que se torna intercessão e compromisso pela paz e pela reconciliação – com gestos concretos que nascem do coração. Cada ato de caridade, por menor que seja, ressoa na eternidade. Não deixemos que a nossa oração se torne um rito estéril, mas voltemos a sentir o batimento do mundo nas nossas comunidades, no nosso apostolado e na missão.
Convido-vos, além disso, a utilizar os materiais sobre a vida e a época do Pe. Martino, preparados para este acontecimento e disponíveis no website da Congregação. Com eles, sugiro-vos que deis a conhecer este nosso irmão e os seus companheiros mártires nas comunidades, nos grupos dehonianos e nos apostolados que acompanhais, propondo-vos a seguinte reflexão: o que vos traz esta beatificação no contexto das realidades em que viveis?
Por outro lado, encorajo-vos a desenvolver iniciativas concretas — ou a apoiar aquelas que já existem — que promovam a cultura da paz, da justiça e da reconciliação a partir dos vossos próprios contextos. Por fim, e de modo particular, convido-vos a preparar momentos de oração para agradecer a Deus o dom desta beatificação.
Que aquilo que estamos a celebrar desperte em cada um de nós a consciência de que, por vocação, não podemos permanecer indiferentes, mas devemos estar junto das feridas abertas do mundo, oferecendo-nos a nós mesmos e a nossa oração como bálsamo reparador. Que o exemplo do Venerável Martino Capelli acenda em nós o fogo que o Venerável Leão Dehon desejava para a sua Congregação. Que este Jubileu não seja apenas um olhar para o passado, mas um impulso para o futuro, e nos alcance a graça de sermos, como ele, construtores de paz e testemunhas do Evangelho.
In Corde Iesu,
Pe. Carlos Luis Suárez Codorniú, S.C.J.
Superior geral



