Pastoral Social em Andhra Pradesh: Entrevista com o Padre Jojapa Chinthapalli, SCJ
Padre Jojappa Chinthapalli, SCJ, o senhor foi recentemente nomeado Secretário Executivo da Andhra Pradesh Social Service Society (APSSS), que abrange 13 das 174 dioceses da Índia. Poderia falar-nos sobre este serviço social católico?
Padre Jojappa Chinthapalli, SCJ: Localizada em Xavier Nagar, Eluru, na região de Andhra Pradesh, a APSSS (fundada em 1979) serve como centro nevrálgico para a ação social, programas de desenvolvimento e atividades de caridade sob a égide da diocese católica romana de Eluru. Durante três décadas, os seus esforços focados no empoderamento das mulheres como agentes de transformação social permitiram realizar progressos significativos na defesa dos seus direitos e interesses. A APSSS introduziu programas de poupança para mulheres já em 1978, permitindo-lhes aceder a recursos governamentais através do DWCRA (Development of Women and Children in Rural Areas) e de parcerias com bancos locais. Apesar dos desafios colocados pela pandemia de COVID-19, que colocou à prova as capacidades organizacionais e a sustentabilidade dos programas, a APSSS realizou uma avaliação abrangente no final de 2022. Este exercício lançou as bases para um quadro estratégico renovado, em sintonia com as realidades socioeconómicas, políticas, culturais e tecnológicas atuais.
E o que é que isso significa, concretamente, em termos do trabalho que irá realizar nestas 13 dioceses?
O nosso trabalho estará concentrado nas atividades fundamentais da APSSS, a saber: a formação e o reforço das capacidades das organizações comunitárias (CBO); a educação e o desenvolvimento de competências através de programas de alfabetização para mulheres adultas em zonas remotas; a formação das partes interessadas e do pessoal para aumentar a sua eficácia; o empoderamento financeiro; a geração de rendimento e a promoção de meios de subsistência através do incentivo à criação de atividades como a pecuária; e a promoção de iniciativas para o ambiente e a saúde comunitária através de campanhas de sensibilização. Aqui, trata-se, por exemplo, da produção de material pedagógico (manuais, canções folclóricas, relatos motivacionais, boletins informativos e suportes audiovisuais) e da organização de encontros formativos locais.
Ao ouvi-lo, percebemos a atenção especial que a APSSS dedica aos grupos desfavorecidos. Pode dizer-nos algo mais sobre esta realidade de desigualdade social na região de Andhra Pradesh?
As comunidades desfavorecidas e as divisões sociais em Andhra Pradesh são categorizadas principalmente através dos quadros constitucionais das Scheduled Castes (SC – Castas Listadas), das Scheduled Tribes (ST – Tribos Listadas) e das Backward Classes (BC – Classes Atrasadas), que enfrentam uma marginalização socioeconómica persistente, a ausência de terras e a falta de acesso aos recursos. As regiões da Andhra costeira e de Rayalaseema (juntamente com Telangana, que outrora fazia parte de AP) apresentam zonas com disparidades socioeconómicas importantes; as regiões do interior e as zonas montanhosas registam frequentemente taxas de pobreza mais elevadas.
E em que categoria se encontra o maior número de católicos?
A maioria dos cristãos e católicos de Andhra Pradesh e Telangana pertence a estas comunidades desfavorecidas. É graças à Igreja missionária que estas pessoas puderam adquirir uma identidade, dignidade e educação. Além destes grupos, existem outras categorias de pessoas consideradas vulneráveis na sociedade, às quais a APSSS se dirige conforme as suas necessidades, nomeadamente:
- As mulheres: Particularmente as das comunidades SC/ST/BC, confrontadas com a discriminação de género, altas taxas de casamentos infantis e oportunidades de emprego limitadas.
- As minorias religiosas: Os grupos marginalizados incluem muçulmanos, cristãos, sikhs e parsis, particularmente nas zonas rurais.
- Os pequenos agricultores e trabalhadores marginais: Grande vulnerabilidade devido à falta de irrigação e à desigualdade na propriedade da terra, especialmente em Rayalaseema e nas regiões interiores.
- As pessoas com deficiência (PCD): Enfrentam barreiras significativas no acesso à educação e ao emprego.
Quais são os principais desafios que estes grupos desfavorecidos enfrentam atualmente?
- Discriminação social: Os mais pobres são desprezados pelos empregadores, pelos ricos, pelos burocratas e até pelo governo. São vistos como preguiçosos, ineficazes e como um fardo para a sociedade. A cada nível, são assediados, humilhados e discriminados. São sistematicamente alvo de agressões e do ódio dos poderosos porque carecem de representação e estão indefesos.
- Pobreza: Em Andhra Pradesh, a pobreza é uma questão complexa que afeta diversas dimensões da sociedade. Não se trata apenas de baixos rendimentos, mas também da falta de acesso a necessidades básicas como educação, cuidados de saúde, água potável, saneamento e outros serviços essenciais.
- Trabalho infantil: Embora as taxas de trabalho infantil tenham diminuído nos últimos anos, ainda há crianças submetidas a formas de trabalho extremamente severas, incluindo o trabalho forçado (servidão por dívida), o recrutamento como crianças-soldado e o tráfico de seres humanos.
- Desemprego: O desemprego é um dos problemas socioeconómicos mais graves da Índia. Segundo o governo indiano, existiam 31 milhões de desempregados no país. A Índia forma todos os anos milhões de médicos, engenheiros, técnicos de informática e enfermeiros… mas inúmeros jovens, apesar dos seus méritos académicos, não conseguem obter um emprego.
- Analfabetismo: Andhra Pradesh tem registado consistentemente uma das taxas de alfabetização mais baixas da Índia. Dados recentes (PLFS 2023-24) colocam o estado no último lugar com uma taxa de 72,6%, contra uma média nacional de 80,9%. Isto sublinha lacunas importantes na educação rural, feminina e no fosso entre as zonas rurais e urbanas.
Enquanto Dehoniano, como é que a sua espiritualidade influencia este compromisso social junto dos mais vulneráveis?
Gostaria de recordar o compromisso social do nosso fundador, o Padre Dehon, em Saint-Quentin e em Val-des-Bois. Através do seu pensamento reformador e das suas iniciativas criativas, ele soube contribuir para a sua sociedade, especialmente para a classe operária. Vivo a mesma experiência que o Padre Dehon na responsabilidade que me é confiada, pois estas pessoas vulneráveis são designadas como “operários” ou pertencentes à “classe trabalhadora” no nosso contexto. Sinto-me privilegiado, como Dehoniano, por poder integrar no meu ministério a espiritualidade do Padre Dehon — o Reinado Social do Sagrado Coração nos corações e nas sociedades. De facto, o Padre Dehon não é apenas uma fonte de inspiração, mas também uma solução para os muitos desafios que encontro.











