19 junho 2026
19 jun. 2026

«Saiamos, pois, ao seu encontro» (Heb 13,13): Uma espiritualidade do acolhimento, da fraternidade e do compromisso social no contexto africano e congolês

«Saiamos, pois, ao seu encontro» (Heb 13,13): Uma espiritualidade do acolhimento, da fraternidade e do compromisso social no contexto africano e congolês
«Uma África reconciliada, um Congo pacificado, uma Igreja fraterna, uma Província unida, uma humanidade reunida no Coração de Cristo.» Uma receção africana da carta do Superior Geral por ocasião da solenidade do Sagrado Coração de 2026.
por  Yanick-Dominique NZANZU Maliro, SCJ
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A carta do Superior Geral, Padre Carlos Luis Suarez, publicada por ocasião da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus 2026, inscreve-se na grande tradição espiritual dehoniana. Ela propõe uma meditação profunda sobre a missão da Congregação hoje, a partir de um texto bíblico central: «Saiamos, pois, ao seu encontro, fora do acampamento» (Heb 13,13).

Este convite é dirigido a toda a Família Dehoniana. Chama-nos a deixar as nossas seguranças para nos juntarmos a Cristo onde Ele sofre, onde a humanidade está ferida, onde o Reino está ainda por construir. No contexto africano e, particularmente, no congolês, esta carta reveste-se de uma atualidade notável. O nosso continente é marcado simultaneamente por: uma juventude dinâmica e cheia de esperança; migrações massivas; conflitos armados persistentes; profundas desigualdades sociais; mas também por uma fé viva e por fortes solidariedades comunitárias. Diante do que precede, e em sintonia com a carta do Padre Geral, surge uma problemática: Como viver hoje o carisma dehoniano como acolhimento do Espírito, fraternidade reparadora e compromisso transformador no coração das nossas realidades africanas? Para responder a esta questão, podemos destacar quatro pontos da leitura da carta: o acolhimento, o Espírito Santo e a transformação da comunidade, a espiritualidade da presença e uma Igreja em saída.

I. O ACOLHIMENTO: PRIMEIRA EXPRESSÃO DA REPARAÇÃO

  1. A escultura dos migrantes: um símbolo do nosso tempo

O Padre Geral abre a sua reflexão com a escultura «Angels Unawares» (Anjos sem o saber) instalada perto da Praça de São Pedro (cf. Heb 13,2). Esta imagem é particularmente eloquente para a África. Hoje, milhões de africanos vivem a experiência do deslocamento: refugiados de conflitos (paróquia de São Gabriel e Santa Marta); migrantes económicos (o Mediterrâneo); jovens que procuram um futuro melhor noutras paragens.

Na RDC, as populações do Leste conhecem esta dolorosa realidade há várias décadas. A escultura recorda-nos, assim, que atrás de cada migrante se esconde uma história sagrada, atrás de cada deslocado se esconde um anjo. É aqui que o Padre Geral cita com ênfase esta exortação da Epístola aos Hebreus: «Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos» (Heb 13,2).

  1. A hospitalidade na cultura africana

Esta palavra toca profundamente os valores africanos tradicionais. Em muitas culturas africanas: o estrangeiro é acolhido; o visitante é honrado; a comunidade prima sobre o indivíduo. Efetivamente, o princípio do «viver juntos» constitui um tesouro cultural que o cristianismo pode valorizar. No entanto, a carta do Padre Geral impele-nos a ir mais longe: pode ler-se nas entrelinhas que o acolhimento não é apenas um valor cultural. Torna-se uma experiência espiritual. Sobretudo porque, segundo o Padre Geral, o acolhimento é «um termómetro da saúde da nossa identidade carismática». Por outras palavras, a nossa maneira de acolher exprime o que somos como cristãos e membros da família dehoniana. Caberia então perguntar: como acolhemos os pobres, os jovens, as pessoas de outras tribos, as pessoas feridas pela vida, os refugiados, etc.?

A resposta a estas perguntas revela a qualidade da nossa vida cristã e a nossa fidelidade à hospitalidade dehoniana como virtude carismática da nossa espiritualidade.

  1. A reparação como acolhimento do Espírito

A carta do Padre Superior Geral retoma o número 23 das nossas Constituições: «A reparação é acolhimento do Espírito». Esta afirmação é fundamental. Em certos contextos africanos, a reparação é, por vezes, compreendida principalmente como penitência ou sacrifício. O Padre Geral regressa à intuição profunda do Padre Dehon: a reparação começa pelo acolhimento. Acolher a Deus, os outros, a história, a missão. Uma vez que, afinal de contas, é o Espírito Santo quem torna isto possível.

II. O ESPÍRITO SANTO E A TRANSFORMAÇÃO DA COMUNIDADE

  1. Jesus, homem conduzido pelo Espírito

A segunda parte da carta contempla Jesus. Toda a sua vida é animada pelo Espírito: na Anunciação; no Batismo; no deserto; na sua missão; até à Cruz. Esta visão é particularmente importante para nós no contexto da África contemporânea. A nossa sociedade confronta-se frequentemente com a violência, a corrupção, o desânimo e as divisões étnicas.

Face a estes desafios, a carta do Padre recorda que a transformação duradoura não provém unicamente das estratégias humanas. Vem, antes de mais, do Espírito. Devemos, portanto, aprender a entrar na dinâmica pneumática, deixando-nos conduzir pelo Espírito.

  1. Pentecostes e reconciliação

O Padre Geral medita, em seguida, sobre João 20. Ali se vê o Cristo ressuscitado que acalma os medos, que restaura a comunhão, que dá o Espírito. De tudo isto brota o nascimento de uma comunidade nova. Esta reflexão toca diretamente as nossas famílias e, sobretudo, a República Democrática do Congo. O nosso país conhece ainda as feridas da guerra, as tensões comunitárias e os traumas coletivos. É aí que somos chamados, como Igreja e especialmente como família dehoniana, a tornarmo-nos um lugar de cura; um «hospital de campanha», como dizia o Papa Francisco; um lugar onde as feridas do nosso tempo possam ser tratadas. A partir daqui, o Padre Geral faz referência ao número 65 das nossas Constituições: «Na comunhão que subsiste apesar dos conflitos e no perdão mútuo…» Eis a nossa missão profética. Numa sociedade fragmentada, as nossas comunidades e as nossas famílias devem tornar-se laboratórios de reconciliação.

  1. Uma fé com consequências sociais

O Padre Geral cita o Papa Leão XIV: «A experiência cristã gera consequências sociais no mundo» (Magnifica Humanitas n.º 49). Desta afirmação capital podemos deduzir que a espiritualidade do Sagrado Coração não é uma devoção intimista. É uma força de transformação social. No nosso contexto, ela consiste em lutar contra a pobreza, promover a educação, defender os direitos humanos, salvaguardar a criação e fazer uma opção Pro Pace (trabalhar pela paz). Tudo isto faz parte integrante da missão. E o Padre Dehon já fazia menção a isso quando falava do «advento do Reino do Sagrado Corazón nas almas e nas sociedades».

III. ESTAR LÁ: UMA ESPIRITUALIDADE DA PRESENÇA

  1. O exemplo de Lacanche

O Padre Geral apresenta, em seguida, a experiência da fraternidade de Lacanche. Uma expressão repete-se: «Estar lá». Esta fórmula parece simples. No entanto, contém uma imensa riqueza espiritual. Estar lá é estar onde se deve estar (em comunidade, em família, no lugar de serviço ou de apostolado), mas é também estar com o confrade, com os pobres, com os esquecidos, com os jovens, com os idosos, com as populações abandonadas.

  1. Uma lição para nós hoje

Esta intuição liga-se profundamente às necessidades pastorais congolesas. Muitas vezes, as populações não esperam, em primeiro lugar, projetos gigantescos ou estruturas imponentes. Esperam uma presença. Em várias regiões da nossa Província SCJ do Congo (aldeias isoladas, zonas de conflito, periferias urbanas e existenciais), o testemunho de uma presença fiel constitui já um anúncio do Evangelho. Exatamente como Jesus: habita entre os homens, partilha a sua condição, caminha com eles.

  1. Contra a tentação do poder

Por outro lado, nesta caminhada, o Padre Geral adverte também contra «as dependências» e «a indispensabilidade pessoal». Esta observação é muito pertinente. Nos contextos eclesiais africanos, existe por vezes uma personalização excessiva das obras. É aí que a carta do Superior Geral recorda que a missão pertence a Cristo. O missionário é servo, não proprietário.

IV. SAIR EM DIREÇÃO A CRISTO: UMA IGREJA EM MISSÃO

  1. Maria e o discípulo amado

O Padre Geral apresenta a Virgem Maria e o discípulo ao pé da Cruz como modelo de comunidade. Eles ensinam-nos, com efeito, a escutar, a acolher e a construir uma fraternidade nova. Esta imagem pode inspirar a nossa Província SCJ. Diante dos desafios contemporâneos: a rápida urbanização que se acompanha da espoliação de terras; a secularização progressiva; a crise socioeconómica; as tensões e os conflitos; somos chamados a criar comunidades capazes de carregar a esperança.

  1. «Saiamos, pois, ao seu encontro»

A expressão central da carta torna-se, então, clara. Sair em direção a Cristo significa: ir para as periferias; encontrar os excluídos; escutar os jovens; defender a dignidade humana; servir a paz. Para nós, concretamente, isto pode significar: acompanhar as vítimas da guerra; promover a reconciliação; apoiar a educação e a saúde; proteger os recursos naturais contra a sua exploração injusta; encorajar uma participação cidadã responsável.

Conclusão: O testemunho do Beato Martino Capelli

A carta termina com a figura do Padre Martino Capelli, que será beatificado no próximo dia 27 de setembro. Num contexto de ódio e de guerra, ele respondeu com: o amor, o perdão e a fraternidade. O seu exemplo responde aos desafios da África contemporânea. Diante das violências que ainda dilaceram algumas regiões do continente, o testemunho dos mártires recorda-nos que a verdadeira força cristã não é a dominação. É o amor. O Padre Geral conclui finalmente regressando ao sonho do Padre Dehon: fazer do Coração de Cristo o lugar onde todos os homens se encontram como irmãos.

Para a África e para o Congo, esta visão continua a ser uma missão urgente: uma África reconciliada, um Congo pacificado, uma Igreja fraterna, uma Província unida, uma humanidade reunida no Coração de Cristo.

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