17 novembro 2021
17 nov 2021

A América Latina ainda é católica?

A América Latina sempre foi considerada como um continente católico. É verdade que em nossos países há uma grande maioria de pessoas batizadas na Igreja Católica, mas elas são batizadas pela tradição e pelos costumes, quase sem impacto na vida: têm, portanto, uma fé superficial e vulnerável.


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O Documento de Aparecida tinha como objetivo atingi-las com uma mobilização missionária envolvendo todos os católicos conscientes de sua fé, a fim de alcançar uma verdadeira conversão a Cristo daqueles que já são batizados na Igreja Católica e se professam católicos, mas não vivem sua fé.

O Papa Francisco continua a chamar por uma “Igreja em saída” e proclama que “a missão é o maior desafio para a Igreja hoje” (Evangelii Gaudium n.15). O slogan é ir para as periferias com a primeira proclamação de Jesus (kerygma) e o protagonismo dos leigos. Em uma carta de 19 de março de 2016 ao Cardeal Marc Ouellet da Pontifícia Comissão para a América Latina, o Papa Francisco comentou: “Lembro-me da famosa expressão pós-conciliar: ‘é a hora dos leigo”. Mas parece que o relógio parou“.

De fato parou, e nós adormecemos. Quando a imprensa fala sobre a Igreja, refere-se ao Papa, aos bispos e ao clero que estão no comando; os leigos não existem. A palavra do povo de Deus não é ouvida; não porque eles não a têm, mas porque não têm canais para expressá-la. Na América Latina, os católicos ainda são a maioria, mas estão em constante declínio. Em contrapartida, os evangélicos estão crescendo. Não é um continente descristianizado como a Europa, mas, por ser formalmente católico, voltou-se para o evangelismo. Obviamente, não se trata agora de cruzadas contra evangélicos como talvez tenha sido no passado, nem de competição entre igrejas cristãs. Hoje existe um clima de reaproximação fraterna entre as igrejas.

A “missão” é somente para aqueles que não conhecem Cristo ou o esqueceram; é para aqueles cristãos que se distanciaram não somente da Igreja Católica, mas de toda a prática cristã na vida. São milhões de pessoas, sem contar as novas gerações que estão cada vez mais alienadas da fé. Após séculos de cristianismo, a América Latina ainda é o continente com mais desigualdade, injustiça social, miséria e violência. Muitos esqueceram que a missão da Igreja não é trazer mais pessoas para suas tendas, mas transformar o mundo de acordo com o espírito do Evangelho. O cristão, sendo um cristão, deve ser uma pessoa comprometida. Por outro lado, o sucesso numérico dos evangélicos é certamente um estímulo para reformular nosso cuidado pastoral, para promover o imenso potencial das forças da Igreja Católica e para fazer uma autocrítica urgente nesta fase de escuta do Povo de Deus.

O continente está se tornando protestante?

A palavra “protestante” refere-se às grandes igrejas que surgiram da Reforma iniciada pelo frade Martinho Lutero no século 16: luterana, calvinista, anglicana. Estas são as igrejas protestantes tradicionais ou históricas; a estas devem ser acrescentadas as igrejas batistas, metodistas, menonitas, presbiterianas, episcopais… Mas enquanto as igrejas históricas só sobreviveram, são as igrejas evangélicas que tiveram uma rápida e maciça difusão desde o início do século passado até hoje, especialmente na América Central.

Hoje mesmo o termo “evangélico” se refere a todas as igrejas não católicas e é praticamente equivalente a “protestante”. A partir dos anos 70, quando os católicos representavam mais de 90% dos latino-americanos, o número subiu para 64,9% em 2017, e os evangélicos, de 4% para 19%. O número alarmante de católicos que estão se mudando para comunidades evangélicas é impressionante. O país mais católico do mundo, o Brasil, passou de 95,2% católico para 61% em 2010; e os evangélicos são agora 26% da população.

Na década anterior à Assembleia dos Bispos em Aparecida, cerca de 30 milhões de católicos latino-americanos haviam deixado nossa Igreja. O bispo peruano Norberto Strotmann, que é sociólogo, declarou sem rodeios que a catolicidade da América Latina como um todo estará em jogo nas próximas décadas. Se a tendência atual continuar, até 2035 já haverá um empate entre católicos e evangélicos. Segundo estudos de Strotmann (cf. “A Igreja depois de Aparecida”) a América Latina é o único continente onde o crescimento dos católicos é inferior ao crescimento da população e o continente onde, junto com a Europa, a Igreja Católica está perdendo mais seguidores.

Pentecostalismo em ascensão

O Pentecostalismo evangélico está crescendo constantemente e é alimentado precisamente por católicos tradicionais sem muita formação. Segundo o Centro de Pesquisa Pew, em uma sondagem realizada em 2014, 55% dos evangélicos argentinos disseram ter sido criados na Igreja Católica e terem encontrado fora dela espaços de maior comunidade, participação e ajuda mútua.

A Igreja Católica em geral não entendia este fenômeno e não sabia como reagir com um tipo diferente de cuidado pastoral. Mesmo entre os pobres, especialmente nas últimas décadas, tem sido deixado desamparado, com o abandono das comunidades eclesiais de base, da pastoral popular, dos grupos bíblicos e da ação libertadora. “Os católicos fizeram a opção pelos pobres e os pobres fizeram a opção pelos evangélicos“, foi dito.

As massas populares que, devido ao fenômeno da urbanização, encheram as periferias das grandes cidades, não foram suficientemente atendidas pela Igreja Católica. A paróquia tradicional católica é normalmente encontrada em centros urbanos e bairros de classe média, com extensas estruturas. Nas periferias, por outro lado, onde vivem as pessoas mais pobres e imigrantes dos países vizinhos, cresceu um grande número de pequenas comunidades cristãs, que não precisam de grandes igrejas, mas se encontram em locais modestos e alugados de culto: galpões, pátios fechados ou em casas de famílias, e simplesmente se identificam com uma faixa na frente. Os pastores, que são dezenas de milhares, são pessoas do povo com pouca preparação teológica ou formação acadêmica, mas que estão muito próximos do povo, falam com o coração e usam uma linguagem acessível e testemunhal….

Nestes lugares de culto, as pessoas têm acesso direto à Bíblia e podem se expressar livremente; isto atrai cada vez mais seguidores. Os convertidos dão testemunho público de sua fé e se comprometem com visitas domiciliares, para oferecer um espaço em suas casas. Eles são vistos visitando hospitais e prisões. No clima atual de anonimato e indiferença, é uma sorte encontrar um grupo onde todos se conhecem pelo nome e se interessam uns pelos outros; onde todos podem entrar e participar como iguais, mesmo os mais pobres ou aqueles que cometeram erros na vida e precisam de uma mão para tirá-los das drogas ou do crime. Nestes pequenos grupos há cantoria, banquete, louvor a Deus e contato interpessoal que traz emoções.

“Conversão Pastoral

A Igreja Católica em geral não respondeu suficientemente aos desafios de renovação propostos pelo Concílio e agora propostos pelo Papa Francisco exortando a todos a uma “conversão pastoral”. Em alguns países, a implementação do Conselho tem regredido nas últimas décadas.

José Comblin disse que a história da Igreja Católica em nosso continente é uma “história de omissões”, refugiando-se apenas no sacramental e ritual. Mesmo assim, não se pode negar que a profecia tem estado presente em nossas Igrejas, a opção pela justiça e pelos pobres, a irrupção da Bíblia, uma nova apreciação da religiosidade popular, o martírio… O que acontece é que a Igreja Católica sofre de fragilidade institucional devido ao baixo e sempre decrescente número de padres e religiosos.

É paradoxal que a América Latina, com 40% dos católicos do mundo, tenha apenas 16,3% dos sacerdotes do mundo e 16,9% dos religiosos do mundo. Ainda mais grave é a extensão de um clericalismo elitista e tradicionalista que se limita aos serviços religiosos e impede os leigos, especialmente as mulheres, que são os que mais trabalham na base, de desempenhar um papel de liderança e receber treinamento. Sobre este ponto, o documento de Santo Domingo já falava de “inércia generalizada” (n.96). Muitas paróquias são como pequenos guetos, onde as mesmas pessoas estão sempre penduradas.

Na Igreja se procura espiritualidade e em vez de encontrar uma escola de oração, às vezes se encontra um clube ou uma politização excessiva da fé. Documentos da Igreja falaram da paróquia como uma comunidade ou rede de comunidades, mas tudo isso permaneceu letra morta. Muitos não compreenderam que assim como a família é a primeira célula da sociedade, a pequena comunidade é a primeira célula da Igreja e a faz presente nos lugares e ambientes mais distantes.

A Igreja como instituição é vista de fora como um fator de poder, fechado em si mesmo e que cumpre, no máximo, uma função moralizadora na sociedade. Em geral, a paróquia não é vista como uma família, um lar acolhedor para todos e a serviço de seus irmãos e irmãs, mas é vista acima de tudo como um provedor de serviços religiosos. A paróquia tradicional não chega a toda a população. É nas pequenas comunidades, aquelas que se reúnem em capelas ou casas, animadas pelos próprios leigos, onde ocorre a leitura orante da Bíblia, onde há um ambiente familiar, conhecimento e ajuda mútua, calor humano, atenção pessoal, proximidade e serviço ao próximo.

Em muitas igrejas católicas, a liturgia tem pouco impacto na vida; há muito anonimato e muito pouco cuidado pastoral acolhedor. A pregação está entranhada na doutrina e na moral, com discursos abstratos, genéricos e tediosos. A promoção de ministérios para os leigos, homens e mulheres, é deficiente. Nossa Igreja é muito institucional e não muito inculturada. Uma metodologia missionária não significa ter uma presença “forte” da Igreja, ou seja, com grandes meios próprios. É preferível que as equipes missionárias dêem prioridade ao contato pessoal, porta a porta, boca a boca, pisar na lama das áreas marginais, beber mate, falar diretamente de Jesus para que as pessoas O conheçam e se convertam a Ele. Devemos romper com a proselitismo e o clericalismo que mantém um laicato quase infantil a seu serviço; o que devemos conseguir é a evangelização do povo pelo povo. O pentecostalismo é como uma picada que nos impele a valorizar mais o nível emocional e festivo da fé e nos estimula a diversificar os ministérios leigos e populares.

O reino terreno

Não é nossa intenção falar dos neopentecostais evangélicos que surgiram nos anos 70 nos Estados Unidos como um ramo do Pentecostalismo e são rejeitados pelas Igrejas protestantes históricas e também pelos Pentecostais clássicos como não sendo fiéis a Cristo e ao Evangelho. São grupos pseudo-religiosos como “Pare de sofrer” (ou Igreja Universal do Reino) e “Deus é Amor” que prometem felicidade imediata, felicidade terrena, saúde e prosperidade econômica se você acredita em Deus e paga o dízimo. Eles realizam milagres e exorcismos em cadeia; eles acreditam em um Deus milagroso que satisfaz todos os nossos desejos se você apoiar a Igreja. Eles oferecem objetos milagrosos, trazidos por exemplo da Terra Santa, capazes de curar doenças. Para obter benefícios do céu é preciso ser generoso e pagar; e quanto mais um for generoso, mais será beneficiado por Deus. Seu trabalho pastoral é caracterizado pelo uso da mídia (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema): precisamente aqueles meios aos quais nós católicos damos tão pouca importância. Seu sucesso é espantoso. São igrejas poderosas que acumulam dinheiro e prometem aos pobres bem-estar e um futuro melhor. Eles pregam a teologia da prosperidade contra a teologia da libertação, porque Deus abençoa os ricos. A riqueza material é um sinal manifesto de favor divino.

Conclusão

Diante desta explosão de Igrejas e pseudo-Igrejas, do avanço do secularismo e da incredulidade, dos escândalos e abandonos em nossa Igreja, a fé de muitos entrou em crise. O que está acontecendo conosco é um claro aviso de que Deus está nos pedindo uma renovação que não se refere tanto aos números, mas à qualidade. Mas a mensagem de Jesus não está em crise. Embora a Igreja seja pecadora, ela tem sido capaz ao longo dos séculos de transmitir essa mensagem através do testemunho de incontáveis santos e mártires. E o bem que ele faz no mundo de hoje também é inumerável na forma silenciosa que Jesus nos ensinou, mesmo que a imprensa apenas destaque os escândalos. Apesar de suas falhas humanas, é o Espírito de Jesus que a guia e protege.

Acreditamos que a Igreja Católica continua sendo o caminho privilegiado de salvação e é por isso que precisamos redobrar nosso compromisso missionário; mas Deus também está trabalhando fora da Igreja. Há muitos cristãos de outras Igrejas que expulsam demônios e fazem o bem em nome de Jesus, apesar de “não serem um de nós“. Jesus diz que eles não devem ser impedidos ou tratados como adversários ou concorrentes (Mc 9:38-40); pois “aquele que faz o bem e não é contra nós está conosco“. O Espírito de Jesus também “sopra onde Ele quer” (Jo 3,8) porque “Deus quer que todos sejam salvos” (1Tm 2,3-6) e acompanha pessoas sinceras que, sem conhecer Cristo, buscam a Deus, lutam pela verdade, amor, justiça e paz; e este é o Reino de Deus.

A própria Igreja não está a serviço de si mesma, mas do Reino de Deus, que é maior do que a Igreja. E no Reino de Deus há espaço para pessoas honestas de todas as religiões e até mesmo não-crentes; e há milhões delas.

O Espírito está lentamente levando a humanidade a Cristo, o único Salvador, e a seu evangelho. Mas no julgamento final o povo recompensado pelo Rei não será necessariamente cristão, daí sua surpresa: “Senhor, quando te vimos? Uma velha canção diz: “Onde há amor, há Deus“.

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