08 setembro 2026
08 set. 2026

Padre Jean Jacques, primeiro padre Dehoniano haitiano: A história de uma vocação

Padre Jean Jacques, primeiro padre Dehoniano haitiano: A história de uma vocação
Entrevista com o P. Jean Jacques no dia seguinte à sua ordenação sacerdotal no Brasil: a história vocacional do primeiro Dehoniano haitiano, que conheceu os Dehonianos enquanto trabalhava em um centro de acolhida para migrantes.
por  Boris Igor Signe, SCJ
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Em 5 de setembro de 2025, Jean Jacques, do Distrito Brasil Mato Grosso (BMT), foi ordenado padre. Nascido no Haiti em 1985, ele percorreu um longo e intenso caminho vocacional: das primeiras experiências religiosas no Haiti ao encontro com a família dehoniana no Brasil, passando pela emigração e pelo trabalho em um centro de acolhida para imigrantes. No dia seguinte à sua ordenação, Jean-Jacques conta, nesta entrevista, sua história, as dificuldades que enfrentou, as pessoas que o acompanharam e o que reconheceu como o fio condutor de sua vida: a providência de Deus.


Padre Jean Jacques, o senhor acaba de ser ordenado Padre. É um sonho que finalmente se realiza?

Sim, é exatamente um sonho realizado. Além disso, é uma grande responsabilidade, porque acabei compreendendo que minha vocação não é apenas uma realização pessoal, mas também, e sobretudo, um chamado a cooperar para a salvação da humanidade. Estou feliz por esta missão à qual nosso Senhor Jesus Cristo me associa hoje.

Como nasceu a sua vocação?

Desde a minha infância, comecei a sentir no meu coração o desejo de ser padre. Eu olhava os padres celebrando a missa e dizia a mim mesmo: «Eu também gostaria de ser padre.» No entanto, eu era muito tímido. Mesmo depois da minha primeira comunhão, eu tinha dificuldade para falar em público e até para fazer uma leitura diante dos outros. Por isso, guardei esse desejo escondido por vários anos. Uma das minhas irmãs me encorajou e apoiou. Graças a ela, pude fazer minha primeira experiência no seminário, com os Camilianos. Fiquei com eles por cerca de dois anos, mas depois deixei a congregação. Após essa experiência, tentei trabalhar, estudar e construir uma vida comum. Contudo, o desejo de me consagrar a Deus nunca desapareceu. Continuava queimando no meu coração.

… a ponto de o senhor se tornar Dehoniano. Mas como acabou chegando lá, sabendo que os Dehonianos não têm nenhuma comunidade no Haiti?

Em 2010, ano do terremoto no Haiti, comecei outra experiência de formação, desta vez com os Marianistas. Durante o noviciado, enquanto estávamos na comunidade, homens armados entraram no refeitório. Eles nos ameaçaram e nos mandaram deitar no chão. Em seguida, atiraram em um de nós. Essa experiência foi muito difícil e tive muito medo. Além disso, meu irmão, que havia me orientado para a congregação dos Marianistas, tinha falecido. Essa perda, somada à invasão dos homens armados, me levou a pedir para deixar a congregação. Quando saí, não pensava em viver outra experiência religiosa. Acreditava que meu caminho vocacional tinha terminado.

Foi por isso que o senhor foi para o Brasil?

A história com o Brasil começa com um dos meus irmãos, que estava lá e me convidou para ir ao seu encontro e trabalhar. Então, viajei para o Brasil em julho de 2013 com um dos meus sobrinhos, mas, quando chegamos, não conseguimos encontrar meu irmão: entretanto, ele tinha retornado para a Guiana Francesa. Ficamos no Brasil sem ninguém para nos acolher. Estávamos indo em direção a Porto Velho, mas, durante a viagem, encontramos outros haitianos. Eles nos falaram de Cuiabá e de uma casa de acolhida dos Escalabrinianos que acolhia imigrantes e os ajudava a encontrar trabalho. Minha família nos enviou o dinheiro necessário para chegar a Cuiabá. Quando chegamos, encontramos a casa de acolhida e, na mesma noite, um trabalho. No dia seguinte, começamos a trabalhar. Pouco a pouco, graças ao centro de acolhida e ao trabalho, comecei a me integrar na sociedade brasileira.

Quando o desejo pela vida religiosa reapareceu e como o senhor conheceu os Dehonianos?

Durante os meus seis meses de trabalho, o desejo de fazer uma nova experiência no seminário se manifestou novamente. Mas a dificuldade com a língua portuguesa tornava tudo mais difícil. Pedi a alguns brasileiros que me ajudassem a entrar em contato com um padre, mas não conseguia dar esse passo sozinho. Tentei várias vezes, sem sucesso. Pouco a pouco, fui me desanimando e me perguntei: «Por que continuar algo que não consigo realizar?» Em 2014, no entanto, conheci um irmão na capela que eu frequentava (São Pedro, no Pedra 90, Cuiabá). Falei para ele do meu desejo de entrar no seminário e ele simplesmente me disse: «Eu posso te ajudar». Ele me apresentou ao padre Angelo, formador no seminário e atualmente Secretário Geral. Esse encontro abriu o caminho para a minha entrada na família dehoniana. Sou profundamente grato a esse irmão. Hoje ele não pertence mais à congregação, mas se tornou meu padrinho de ordenação como leigo. Nunca esquecerei o que ele fez por mim.

Ordenado Padre no último dia 5 de setembro, que olhar o senhor lança sobre os seus anos de formação?

A formação foi longa e envolveu muitas mudanças, mas não tenho nenhum arrependimento. Olhando para trás, reconheço que o Senhor tinha preparado algo para mim que eu ainda não conseguia ver. A formação me ajudou a crescer na maturidade humana, psicológica e espiritual. Antes de entrar no seminário, eu era uma pessoa diferente. Hoje, fazendo um exame de consciência, me dou conta de que mudei profundamente. Posso dizer que me tornei «outro Jean Jacques». Não acredito que teria chegado até aqui unicamente graças à minha inteligência ou às minhas próprias forças. Enfrentei muitas dificuldades, especialmente por causa da língua e das diferentes situações que tive de encarar. Por isso, reconheço na minha história a presença da divina providência. Experimentei a misericórdia de Jesus Cristo. Sem essa misericórdia, eu não estaria aqui hoje.

O que mais o atraiu no carisma dehoniano?

Fiquei marcado sobretudo pelo carisma da oblação de Cristo por seus irmãos e por toda a humanidade. Desde o início, experimentei o acolhimento recebido na congregação. Também fui tocado pela disponibilidade dos religiosos, vivida como uma verdadeira dimensão missionária, bem como pela sua proximidade concreta com as pessoas. Descobri que os Dehonianos procuram estar próximos do povo. Não é apenas uma ideia ou uma palavra: é um carisma vivido no cotidiano, através do encontro e da proximidade. No centro da minha espiritualidade está o Coração de Jesus. Acredito que, graças à amizade e à proximidade com o Coração de Cristo, podemos nos aproximar dos nossos confrades e das outras pessoas.

Após a alegre euforia em torno da sua ordenação e das suas primeiras missas no Brasil, o senhor já planeja voltar para compartilhar essa alegria com a sua família no Haiti?

No momento, não tenho planos de ir ao Haiti para celebrar uma missa de ação de graças com a minha família. É uma decisão dolorosa, mas necessária para a minha segurança e para a dos meus familiares. Pois o contexto de crise atual no Haiti favorece, entre outras coisas, sequestros e pedidos de resgate. Além disso, meu pai e minha mãe não estão mais lá: meu pai faleceu quando eu estava no segundo ano de filosofia e minha mãe faleceu no ano passado. Mas acredito que eles me acompanham espiritualmente.

Padre Jean Jacques, parabéns pela sua ordenação sacerdotal. Para terminar, o senhor tem uma mensagem?

Obrigado! Agradeço também a vocês pela oportunidade de compartilhar a história da minha vocação. É uma história que me ensinou que a vocação nem sempre se manifesta de maneira imediata ou linear. Existem momentos de medo, de solidão e de desânimo. Algumas portas parecem fechadas e algumas situações parecem sem saída. Mas Deus continua acompanhando o nosso caminho. Ele faz isso às vezes por meio de uma pessoa encontrada de forma inesperada, de uma palavra simples ou de um gesto de acolhida. Experimentei essa providência em várias ocasiões: no Haiti, no Brasil, na casa de acolhida, no trabalho, na comunidade e no seio da família dehoniana. Hoje, no dia seguinte à minha ordenação, posso dizer que sou profundamente grato. Não porque o caminho tenha sido fácil, mas porque, através de cada dificuldade, aprendi a reconhecer a misericórdia de Deus e a presença do coração amoroso de Jesus.

 

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