A vida religiosa como dom particular para testemunhar a supremacia do Reino (Cst. 13)
No âmbito do Jubileu Dehoniano (2024–2028), temos o prazer de partilhar a quinta reflexão e testemunho, centrado na Constituição n.º 13.
A Carta de Introdução do Superior Geral para o Jubileu Dehoniano (2024–2028) destaca que o coração espiritual da nossa celebração assenta na reflexão sobre as Constituições nn. 9–39. Temos o prazer de partilhar a quinta reflexão e testemunho, centrado na Constituição n.º 13.
Reflexão sobre a Constituição 13
Com todos os nossos irmãos cristãos, somos chamados a seguir os passos de Cristo para alcançar a santidade (cf. 1 Ts 4,7). – “Pois para isto fostes chamados, porquanto também Cristo padeceu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos” (1 Pt 2,21).
Enraizada no nosso batismo e na nossa confirmação, a nossa vocação religiosa é um dom particular, tendo em vista a glória de Deus e para atestar a primazia do Reino.
O XV Capítulo Geral confirmou que a nossa vida religiosa se baseia na vida teologal, entendida como a relação com Deus. A referência explícita à iniciação sacramental mostra-nos até que ponto cada dehoniano faz parte de uma comunidade espiritual unida. Através da graça batismal e da colaboração com o Espírito Santo na confirmação, cada dehoniano é chamado a seguir os passos de Cristo, descobrindo a sua própria vocação particular no mundo. A nossa vocação encontra a sua raiz na santidade, a ser entendida como um ideal a alcançar no contexto da experiência dehoniana da fé.
Compreender o conceito de santidade pode parecer um tema óbvio e evidente para muitos. É importante lembrar que o contexto em que estes temas são debatidos pode, por vezes, levar a mudanças significativas na sua interpretação. É igualmente importante recordar que a santidade é uma meta que se alcança através de passos pequenos, mas significativos, seguindo o exemplo de Cristo. É precisamente nesta busca que encontramos a santidade «à maneira dehoniana», entendida como uma resposta reparadora capaz de se unir à instauração do Reino do Sagrado Coração nos corações humanos e nas sociedades, tal como a interpretou o padre Albert Bourgeois.
Efetivamente, unimo-nos a esta comunidade com a intenção de realizar essa vocação mais geral que encontra a sua raiz no capítulo quinto da Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen gentium. A santidade já não é um requisito exclusivo reservado a um grupo restrito, mas faz cada vez mais parte do nosso modo de vida quotidiano. Este dom deve, portanto, ser visto numa perspetiva cristológica que coloca o reino de Jesus como uma realidade que floresce a partir da nossa colaboração com a Sua graça. Todos nós somos chamados a tornar-nos profetas do amor e servos da reconciliação, enviados pelo Mestre ao povo. A nossa santidade pessoal não é apenas um ornamento adicional, mas a forma como realizamos plenamente a nossa vocação ao discipulado.
Isto ajuda-nos a compreender quão importante é a nossa contribuição e até que ponto somos chamados a fazer crescer este Reino, especialmente nos nossos próprios corações. O nosso carisma dehoniano não é apenas um projeto a propagar, mas um modo de vida que eu próprio devo pôr em prática com compromisso e dedicação. Na verdade, o padre Dehon pedia-nos não só para promover a devoção ao Sagrado Coração, mas também para a viver com dedicação na oblação, na reparação e na adoração. E só assim poderemos fazê-la irradiar a todas as pessoas confiadas aos nossos cuidados pastorais. A nossa vida cristã, consagrada e dehoniana leva-nos a fixar o olhar em Cristo, que nos faz conhecer e crer no seu amor, para que Ele possa reinar em nós e através de nós.
(Jakub Bieszczad, SCJ)
Testemunho sobre a Cst. 13
Um testemunho pessoal do P. Julius Socorro, SCJ, diretor do Centro Espiritual Dehoniano nas Filipinas.
Durante um dos retiros de três dias que acompanhei, um retirante partilhou um pensamento que me ficou gravado: «É verdade que morremos uma só vez; mas não é verdade que vivemos uma só vez, porque vivemos todos os dias.» Enquanto o escutava, perguntava-me se haverá algo mais assustador do que a própria morte: a possibilidade de chegar ao seu fim sem ter descoberto por que razão nos foi dada a vida. Uma vida com sentido, vou percebendo lentamente, não se resume simplesmente àquilo que construímos, alcançamos ou deixamos para trás. Tem mais a ver com tornarmo-nos naquilo que Deus nos chamou a ser.
Isto torna-se particularmente significativo quando penso nas pessoas que vêm ao centro espiritual. Neste período relativamente curto em que me foi confiado este ministério, encontrei pessoas, especialmente jovens, que carregam um certo vazio. Há tanto ao seu redor: tecnologia, informação, oportunidades, relações e planos para o futuro; e, no entanto, algo ainda pode parecer faltar. Talvez este vazio não seja apenas um problema a resolver. Pode também tornar-se um espaço onde Deus está à espera de ser descoberto. Por debaixo do ruído, há um anseio de sentido, de algo mais profundo do que o sucesso, o reconhecimento ou o conforto.
Isto faz-me refletir sobre o nosso lugar como religiosos. Talvez as pessoas nem sempre precisem que lhes expliquemos a vocação. Antes de ouvirem o que dizemos, podem precisar de encontrar alguém que a esteja realmente a viver. No centro espiritual, as pessoas não encontram apenas os nossos programas e as nossas palavras. Encontram-nos a nós: como rezamos, escutamos, perdoamos, servimos, carregamos as nossas responsabilidades e respondemos ao imprevisto. Encontram a nossa vida.
É aqui que a autenticidade da vida religiosa se torna importante. Uma vida vivida com Cristo não pode permanecer completamente oculta. Quando Cristo se torna o centro, algo d’Ele começa a transparecer: na paciência, na disponibilidade, no perdão, na fidelidade e na coragem de permanecer quando seria mais fácil partir. Estas expressões ordinárias da fé podem tornar-se para outra pessoa o primeiro vislumbre do mistério de Deus.
Isto é ao mesmo tempo belo e assustador. Belo, porque as nossas vidas podem tornar-se uma abertura através da qual outra pessoa pode entrever algo para além de si mesma. Assustador, porque a vida religiosa não pode ser simplesmente “representada” ou executada. Podemos desempenhar um ministério, assumir responsabilidades e até interpretar a nossa identidade religiosa. No entanto, há uma diferença entre executar a vida religiosa e viver a partir da relação que lhe deu origem.
É por isso que volto à convicção de que os nossos votos são, antes de mais, um dom. Não construímos a nossa vocação nem a alcançámos pelas nossas próprias forças. Recebemo-la. E porque é um dom, também deve ser cuidada e cultivada. Sem a proximidade com Aquele que dá, o dom pode lentamente transformar-se numa obrigação; a relação pode tornar-se um papel, a oração uma atividade, o ministério uma função e o testemunho uma representação.
Talvez seja esta uma das coisas que mais temo: não simplesmente falhar no ministério, mas fazer muitas coisas por Deus enquanto lentamente me me distancio do próprio Deus.
As pessoas que vêm ao centro espiritual trazem frequentemente as suas perguntas, as suas feridas, desilusões, esperanças e o seu silêncio. A sua presença coloca-me uma questão à qual não posso facilmente escapar: Que tipo de religioso estão elas a encontrar em mim? Não apenas o que lhes ensino ou digo, mas o que diz a minha vida?
Nem sempre sei a resposta. Talvez não deva fingir que a sei. Ainda estou em formação. Ainda estou a aprender a voltar a Cristo e a deixar que Ele molde o meu coração.
Talvez seja isto o que significa testemunhar a supremacia do Reino: não necessariamente fazer coisas extraordinárias, mas viver de tal modo que a nossa vida aponte para além de si mesma, amar porque fomos amados primeiro, servir porque a nossa vida já foi entregue, e permanecer fiéis mesmo quando ninguém repara.
A nossa vida ganha sentido quando se torna um dom. E talvez a vida religiosa se torne um verdadeiro testemunho do Reino quando, sem dizer muito, a nossa própria vida revela silenciosamente que vale a pena viver pelo Reino.
(P. Julius Socorro, SCJ)


