06 novembro 2026
06 nov. 2026

“Aqui fui acolhido como o filho amado”: o testemunho de Moriba, refugiado muçulmano, acolhido pelos Dehonianos em Roma.

“Aqui fui acolhido como o filho amado”: o testemunho de Moriba, refugiado muçulmano, acolhido pelos Dehonianos em Roma.
Raptado durante o conflito no Mali em 2013, sobrevivente do deserto e depois do Mediterrâneo, Moriba é hoje auxiliar de saúde em Roma. Nesta entrevista, recorda a sua história e a sua relação fraterna com a comunidade dehoniana da Cúria Geral.
por  Boris Igor Signe, SCJ
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Moriba Keita (30 anos), natural do Mali, é amigo da comunidade da Cúria Geral dos Padres do Sagrado Coração, onde foi acolhido após concluir o período legal de acolhimento e integração num centro para requerentes de asilo em Roma.Nesta entrevista, recorda com emoção o seu percurso de integração e os sete meses passados na comunidade dos Padres do Sagrado Coração (Dehonianos). Um testemunho luminoso sobre a fraternidade, a perseverança e o respeito mútuo,para além de quaisquer diferenças culturais e religiosas.


Moriba, viveu sete meses na comunidade da Cúria Geral dos Padres do Sagrado Coração, com quem criou laços profundos de amizade. Como entrou em contacto com esta comunidade? De onde nasceu essa ligação?

Eu estava num centro de acolhimento em Roma. No final do processo, quando se obtêm os documentos, o centro pede que procuremos um alojamento, pois o trabalho deles termina aí. Recebe-se uma pequena ajuda financeira de saída, mas não chega de todo para arrendar um apartamento, ainda para mais sem um emprego estável. Foi um período de grande angústia; eu não sabia o que fazer. Foi então que a Irmã Maria — uma religiosa formidável que nos visitava com frequência e com quem mais tarde colaborei como voluntário — teve conhecimento da minha situação. Disse-me: «Não te preocupes, vou levar-te para um sítio onde poderás ter tempo, estudar, arranjar trabalho e poupar». Foi ela quem me levou aos Padres do Sagrado Coração, nesta comunidade dos padres Dehonianos, já no final do período da Covid-19. Fiquei alojado ali durante sete meses.

Como decorreu esse período de acolhimento no seio desta comunidade religiosa?

A minha estadia na comunidade foi uma experiência tão marcante que jamais poderei esquecer. Mesmo depois de ter ido trabalhar alguns anos para França, nunca perdi o contacto. Nunca. Na altura estavam lá o Padre Bruno, o Padre Carlos e muitos outros… Para mim, tornaram-se uma verdadeira família. Deram-me tudo. A casa estava à minha disposição. Quando regressava à noite, desanimado depois de dias inteiros à procura de trabalho ou de casa sem conseguir nada, eles vinham ter comigo e confortavam-me. Durante esses sete meses consegui concluir a minha formação, tirar a carta de condução, encontrar trabalho e poupar dinheiro para arrendar a minha própria casa. Quando chegou a altura de partir, disseram-me: «Isto não acabou. A casa continua aberta para ti, vem quando quiseres».Trataram-me como o filho amado da família.

Se as coisas não tivessem corrido tão bem, jamais teria pensado em voltar hoje. Aliás, mesmo quando já tinha a minha própria casa em Roma, eles escreviam-me: «Vem passar o sábado ou o domingo connosco!» Então eu ia, partilhávamos a refeição e depois regressava a minha casa. Foi verdadeiramente uma experiência inesquecível.

O Moriba é muçulmano e viveu no seio de uma comunidade de padres católicos. Como viveu esse contacto quotidiano com o catolicismo e que experiência retirou daí?

Foi precisamente isso que mais me tocou: a forma como me acolheram, sabendo que eu sou muçulmano e eles cristãos.Foi, de facto, um respeito absoluto. Sabe, enquanto não se vive, custa a crer que um muçulmano e um cristão possam viver juntos desta maneira. Todos os Padres da comunidade me respeitavam profundamente e respeitavam a minha religião. Isso foi algo muito grandioso para mim. Às refeições tinham muita atenção à comida: preparavam frango à parte nos dias em que havia carne de porco, e colocavam sempre uma bebida sem álcool junto ao meu prato enquanto eles bebiam vinho. Essa atenção delicada, essa fraternidade simples: isso é a verdadeira convivência.

A sua chegada a Itália foi antecedida por um percurso particularmente doloroso. Porque e em que circunstâncias deixou o Mali?

Tudo mudou em 2013, com a guerra. Eu ainda era estudante. Durante as férias escolares tínhamos viajado para o Norte quando fomos surpreendidos pela chegada de grupos armados jihadistas. Capturaram-nos, atiraram-nos para a caixa de carrinhas de caixa aberta e fecharam-nos num hangar durante vários dias. Batiam-nos e exigiam informações sobre as posições do exército do Mali, quando nós não passávamos de adolescentes. Eu era um dos mais novos do grupo. Numa noite em que eles se ausentaram, conseguimos forçar a porta e fugir pelo deserto. Caminhámos a noite inteira e grande parte do dia seguinte, debaixo de um sol abrasador e por entre tempestades de areia. Exaustos, fomos socorridos por um comerciante na sua camioneta, que passava por ali e nos levou até à Argélia.

Como chegou depois à Europa?

Chegados à Argélia, ele libertou todos os outros, exceto eu. Achou que eu era demasiado novo e disse-me: «Tenho filhos da tua idade. Vem comigo». Já sem saber em quem confiar, hesitei no início. Mas, não tendo para onde ir, aceitei que me levasse para casa dele. Lá havia, de facto, jovens da minha idade. Ele era proprietário de várias lojas.Acompanhando os filhos dele, comecei a integrar-me e a aprender o ofício do comércio.

Contudo, um dia, homens armados invadiram a loja e raptaram-me. Ameaçavam-me de morte. Eu não fazia ideia para onde me estavam a levar. Acabámos por atravessar a fronteira para a Líbia. Lá, fui levado à força até à costa. Nunca tinha visto o mar na minha vida. Forçaram-me a embarcar num barco precário, no meio de muitos outros refugiados.Foi aterrador; pensei que ia morrer no mar. Mas Deus é grande. Já não esperava sobreviver, achava que era o meu fim.Depois, fomos resgatados no mar por grandes navios. Foi assim que cheguei a Itália. Agradeço a Deus. É inacreditável.Foi assim que cheguei a Itália. Agradeço verdadeiramente a Deus. No meu caminho só encontrei pessoas de bom coração. E aqui em Itália encontrei esta comunidade, que se tornou a minha família.

Uma vez em Roma, como reconstruiu a sua vida?

No início, a vida no centro de acolhimento foi dura, ritmada pela aprendizagem da língua, pelos trâmites administrativos e pela espera dos recursos para os títulos de residência. Uma voluntária senegalesa, a Mariam, reparou na minha determinação e na minha facilidade em aprender; foi ela quem me encaminhou para uma formação de serviço cívico (servizio civile). Durante essa missão, fui destacado para o apoio a pessoas idosas e vulneráveis. Foi aí que descobri a minha vocação. Ao ver a dedicação dos profissionais de saúde, em particular de um colega chamado Jean com a sua bata branca, disse para mim mesmo: «É este o trabalho que quero fazer».

Poupei cada euro do meu subsídio e fiz turnos noturnos a cuidar de idosos dependentes para pagar os meus estudos.Obtive depois o diploma oficial de operador sociossanitário (OSS, auxiliar de saúde qualificado). Hoje exerço esta profissão em hospitais e em lares e residências assistidas. Em todos os sítios onde trabalhei encontrei colegas e amigos italianos formidáveis que me apoiaram e orientaram em todos os momentos difíceis.

Recentemente pôde regressar ao Mali pela primeira vez, após 10 anos de ausência. Como foram os reencontros?

Foi em julho de 2025, exatamente dez anos após a minha partida. Durante todo esse tempo a minha família não tinha qualquer notícia e não sabia se eu estava vivo; muitos pensavam que eu tinha morrido. Quando cheguei, todos choravam, cantavam e dançavam de alegria. Eu próprio me desfaiz em lágrimas. Infelizmente, a minha mãe faleceu durante a minha ausência, o que foi uma dor imensa, mas pude ir recolher-me junto da sua sepultura. Durante essa estadia também me casei. A minha esposa está atualmente no Mali e, assim que a minha situação de trabalho e habitação estiver completamente estabilizada, espero de todo o coração trazê-la para Roma para a apresentar à minha «família italiana», os padres Dehonianos.

Que mensagem deseja transmitir através da sua história?

Em primeiro lugar, uma mensagem de esperança e de força de vontade: quando a vida nos põe à prova, com fé, trabalho e dedicação sincera, é possível ultrapassar todos os obstáculos. Depois, uma mensagem sobre o encontro com o outro.Não nos devemos prender a preconceitos nem a boatos. A forma como as pessoas nos olham depende sobretudo da maneira como nos apresentamos a elas, com respeito e honestidade. O que vivi com os Padres do Sagrado Coração marcou-me para sempre. A sua generosidade e o seu acolhimento fraterno provaram-me que a dignidade humana e o respeito ultrapassam qualquer barreira.

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