23 novembro 2020
23 nov 2020

Fratelli tutti: uma perspectiva indiana

A Índia é pluralista, multicultural e religiosa. A encíclica do Papa Francisco é um apelo para superar o fechamento causado pelas castas e religiões. O desafio dos Dehonianos é trabalhar pela unidade.

por  Emmanuel Nanduri, scj

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A terceira encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti foi publicada na festa de São Francisco de Assis (4 de outubro de 2020). Está estruturado em 8 capítulos, 287 parágrafos e cerca de 43.000 palavras: um apelo universal à fraternidade humana e à amizade social. É um apelo que vai além das esferas religiosa, política, racial, étnica e institucional. No dia 5 de fevereiro de 2019, o próprio Papa visitou o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayeb, em Abu Dhabi, por ocasião da comemoração do 800º aniversário da visita de São Francisco de Assis ao Sultão Malik al-Kamil do Egito, em Damietta, em 1219. Seguindo São Francisco, o Papa Francisco desafia a sociedade secularista, individualista e multi-religiosa do mundo de hoje com uma questão fundamental: Quem é o meu próximo? [Lc 10,29.37].

Luzes e sombras

A encíclica traz à tona alguns fatores que prevalecem na sociedade atual e em muitos aspectos da vida: escuridão, divisões, desconstrucionismo, dominação e discriminação. O Papa diz: “já não há espaço para diplomacias vazias, dissimulações, discursos com duplo sentido, ocultamentos, bons modos que escondem a realidade” [FT 226]. Por outro lado, ele propõe dignidade, diálogo, discernimento, democracia e ações, como meios de construir fraternidade, amizade, perdão e familiaridade. Ele enfatiza também a Terra como nossa casa comum e nós, seres humanos, somos uma família, unida pela fraternidade e pela amizade. A encíclica começa destacando as sombras da escuridão que dividem e governam os povos, e conclui com um apelo universal às religiões para construir a unidade e a fraternidade. Ele declara que todos os seres humanos são irmãos e irmãs porque todos são uma imagem de Deus (Col 1,15) e todos têm o direito de viver com dignidade (FT 106). A identidade da pessoa não está restrita à cor, credo, casta, nem a uma tribo, nação ou fé (FT 117). Pelo contrário, consiste em reconhecer o outro como se fosse a si mesmo.

O Bom Samaritano hoje

Por esta razão, o Papa Francisco apresenta o exemplo do Bom Samaritano que, apesar de ser publicamente ridicularizado e socialmente discriminado, para e avança para ajudar o injuriado, porque ele se identifica com aquele ferido e roubado. Com referência ao Samaritanus Bonus, o Papa fala dos migrantes, dos marginalizados, dos pobres e dos necessitados, particularmente neste período de Covid-19. Ele escreve que a recente pandemia nos permitiu reconhecer e apreciar mais uma vez todos aqueles que, em meio ao medo, responderam colocando as suas vidas em risco: “fomos capazes de reconhecer como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns que, sem dúvida, escreveram os acontecimentos decisivos da nossa história compartilhada: médicos, enfermeiros e enfermeiras, farmacêuticos, empregados dos supermercados, pessoal de limpeza, cuidadores, transportadores, homens e mulheres que trabalham para fornecer serviços essenciais e de segurança, voluntários, sacerdotes, religiosas… compreenderam que ninguém se salva sozinho” (FT 54). O amor de Deus e o amor ao próximo empurram todos para estarem próximos uns dos outros. A resposta pessoal supera o fundamentalismo religioso, os preconceitos de casta, cor, classe e credo e a auto-orientação para avançar para o outro: eu sou o próximo.

Samaritanos e Dalits

O Papa citou Mahatma Gandhi, além de Francisco de Assis, Martin Luther King, Desmond Tutu e Charles de Foucauld como algumas das fontes de sabedoria que o inspiraram a abordar esta encíclica. Citou também a CCBI – Conference of Catholic Bishops of India (Conferência dos Bispos Católicos da Índia), de cuja afinidade compartilha como vigário de Cristo. Com esta fraternidade dirigida à Índia e à Igreja indiana, gostaria de tentar chamar a atenção em dois níveis: a atualização da encíclica e seus desafios na Índia hoje. A encíclica prega o cenário indiano atual onde estão em jogo os direitos das minorias, o fundamentalismo religioso, o direito à liberdade religiosa, a opressão dos dalits e o preconceito de gênero (mulheres) exacerbam o direito à igualdade,  além da pobreza e do tráfico de pessoas deteriorarem o senso de fraternidade . Além disso, a identidade nacional da Índia como pluralista, multicultural e religiosa é questionada. Existem três males sociais dominantes na Índia que definem a dignidade humana e dominam a sociedade: religião, casta e vida social. Tudo gira e evolui neles e em torno deles. A imagem do Samaritano ou do Migrante da encíclica, pode ser indianizada pela figura de um Dalit. Ele está privado de seus direitos humanos fundamentais como intocável, proibido de entrar nas instalações do templo e nasceu para servir às castas superiores desde a fundação da teoria do Karma (bom ou mau destino). O Dr. B. R. Ambedhkar era um dalit, que se identificava com os intocáveis, alquebrados e feridos da sociedade indiana. Ele se assemelhava ao Samaritanus Bonus por ter trazido dignidade e identidade a milhões de dalits como o único autor das Constituições indianas. Ele se tornou vizinho de milhões de pessoas que sofrem injustiças e desigualdades na Índia.

Todos os indianos são meus irmãos e irmãs

A Igreja Católica indiana não está longe da teoria do Karma que tem dividido e governado a sociedade indiana em castas durante séculos. Enquanto os dalit representam 70% da população católica, do total de 174 bispos, existem apenas 11 bispos dalit; 90% dos padres e religiosos representam castas superiores. Para além da falta de unidade e uniformidade da Igreja indiana, os cristãos enfrentam uma ameaça no novo milênio como estrangeiros em casa. A alteração da Lei da Cidadania (CAA) de 2019, o grito das minorias, a cólera do fundamentalismo religioso, a suspensão das ONG e a acusação contra o P. Stan Swamy, sj, etc., são algumas das questões mais acirradas na Índia de hoje e que clamam a um compromisso nacional de ação: Índia é o meu país, e todos os indianos são meus irmãos e irmãs. Desta forma, o diálogo inter-religioso e o respeito mútuo poderiam ser métodos prováveis de criar paz, harmonia, fraternidade e um sentido de pertença de Vasudhaiva Kutumbakam (o mundo é uma só família) na Índia. Que este seja o nosso lema: Sint Unum (que todos sejam um).

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